Linchamento virtual

Renato NaliniA humanidade é cruel. Mas a crueldade pode se intensificar e ganhar requintes quando propagada pelas redes sociais. O mundo virtual desinibe, estimula o exercício da crítica e da ofensa. A ausência do alvo, uma pessoa física longe dos olhos do ofensor, faz com que este abuse. Exagere e perca o controle.

Os “linchamentos virtuais” passaram a ser um exercício comum nas redes. É o apedrejamento da antiguidade, a fogueira da Inquisição medieval. A avalanche de mensagens hostis na internet oprime, aterroriza e ocasiona o assassinato social.

Já me posicionei a favor da comunicação virtual, inclusive para propor que ela servisse à aferição imediata e sem custos da opinião da maioria. Pode ser um instrumento de implementação da Democracia direta. Substitui com vantagens a consulta formal, convencional, o exercício do sufrágio mediante comparecimento físico do eleitor ao local onde exteriorizará a sua opinião. Mas para o lado mau, a multidão já está a desempenhar o seu terrível poder.

A perseguição de algumas vítimas nas redes é desproporcional. Expõe a pessoa a um público de dimensões ignoradas, não observa o contraditório, que caracteriza o devido processo legal e, pior ainda, as informações são indestrutíveis.

A punição é praticamente eterna. Ultrapassa o prazo vitalício. Incentiva o chamado “viés de grupo”, ou seja, a tendência que se tem de temer ou odiar os que não enxergamos como semelhantes. É o fenômeno que Richard Sennet, autor de “Juntos”, chama de tribalização: um impulso natural, animalesco, de solidariedade em relação aos parecidos e agressão contra os diferentes.

Mas será que a internet nos torna mais rancorosos, mais maldosos e insensíveis? Não. Já somos assim. A internet não muda a nossa humanidade, não nos torna mais cruéis, mas permite que expressemos nosso ódio em maior escala. É o que afirma Nicholas Christakis, diretor do laboratório da natureza humana de Yale. Já a escritora Jennifer Jacquet, em seu livro “Is Shame Necessary?” (A vergonha é necessária?), enxerga um aspecto positivo: “A punição pela exposição pública age não apenas para desestimular um indivíduo a repetir comportamentos, mas para sinalizar à sociedade que uma conduta não é apropriada”. Quem sofre o linchamento moral pela internet já não consegue pensar da mesma maneira.

(*) JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br

(*) Artigo publicado no ‘Jornal de Jundiaí’, em 09/07/2015.

Que plano o governo tem para a educação?

Maria Alice Setubal

Maria Alice Setubal

O MEC não apresentou até agora medidas que induzam Estados e municípios a se comprometerem com o Plano Nacional de Educação

Não há o que comemorar após um ano de vigência do Plano Nacional de Educação (PNE). Imerso em um cenário de crise econômica e política, com graves impactos na educação, o Brasil cumpriu parcialmente o prazo para que municípios e Estados aprovassem seus planos de educação, que expirou em 24 de junho.

Apesar de ser uma das principais estratégias do Plano Nacional, cerca de 15% dos municípios ainda não têm seus planos municipais sancionados. Também não há sinais de que em 2016 o país consiga atingir outra das metas previstas no PNE, a da universalização da pré-escola para as crianças de quatro e cinco anos. Para isso, seria necessário em um ano inserir cerca de 700 mil crianças nessa etapa de ensino.

Apesar das declarações do ministro Renato Janine Ribeiro reforçando a importância do PNE, o Ministério da Educação não apresentou até agora um conjunto de medidas que induzam Estados e municípios a se comprometerem com as metas.

Ao contrário, assistimos surpresos à discussão de um plano desenvolvido pela Secretaria de Assuntos Estratégicos, que não dialoga com o MEC nem com o Plano Nacional. A falta de esclarecimento gera confusão, enfraquece o ministério e, sobretudo, revela uma falta de sintonia no governo, que desperdiça esforços e recursos em um momento de cortes e de urgência na reversão do quadro educacional brasileiro.

Nossas desigualdades educacionais ainda são enormes, em especial quando comparamos os Estados das regiões Norte e Nordeste com o restante do país. O mesmo ocorre entre as zonas rurais e urbanas ou entre os centros e as periferias das grandes cidades.

Não se trata de um percentual residual, mas de algo que afeta cerca de 40% dos estudantes que frequentam a escola pública nessas regiões. Não vamos dar o salto de qualidade sem políticas claras e alinhadas que enfrentem essa situação.

A complexidade do contexto brasileiro se agrava quando consideramos que, ao mesmo tempo em que devemos buscar superar essa situação, a educação deve responder aos desafios do século 21 expressos na necessidade de uma escola mais aberta à comunidade, às questões contemporâneas e que ofereça uma aprendizagem mais personalizada.

A aspiração por um desenvolvimento sustentável para o Brasil, que incorpore uma visão sistêmica e estratégica, exige trabalhadores que possam resolver problemas de forma rápida e criativa, que saibam trabalhar em equipe. Essa aspiração demanda também cidadãos que tenham acesso a conhecimentos, com capacidade de participar de debates e de exercer o controle da implementação de políticas públicas.

Não se trata de tarefa simples, requer uma mobilização dos diferentes setores da sociedade para a articulação das metas do PNE, com um plano de apoio e “empoderamento” de Estados e municípios para que alcancem as metas previstas e reorganizem as escolas para que se tornem o espaço privilegiado para responder a esses desafios.

Não é preciso começar do zero ou nos valer de referências externas. Há experiências colocadas em prática por escolas e, especialmente, por redes de ensino que podem apontar caminhos para o desenho de programas, projetos e ações.

A crise educacional não será superada sem o envolvimento dos professores. Não bastará um novo currículo, inclusão de inovações tecnológicas, expansão da educação integral e de políticas de equidade e respeito à diversidade cultural sem profissionais capacitados. Esse ponto exige uma revolução na educação por meio de uma política de valorização que inclua plano de carreira, salário e mudanças estruturais na formação inicial e continuada.

Os últimos resultados educacionais revelaram que não só não avançamos como regredimos na qualidade da educação ofertada às nossas crianças e jovens.

Essa situação parece demonstrar com clareza que precisamos muito mais do que uma política imediatista e de cunho marqueteiro, como a criação de uma rede de escolas federais de referência, prevista no plano da Secretaria de Assuntos Estratégicos, para chamarmos o Brasil de pátria educadora.

(*) MARIA ALICE SETUBAL, a Neca, doutora em psicologia da educação pela PUC-SP, é presidente dos conselhos do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária – Cenpec e da Fundação Tide Setubal. Foi assessora de Marina Silva, candidata à Presidência da República em 2014.

(*) Artigo publicado no jornal ‘Folha de São Paulo’, em 10/07/2015.

Redes sociais não são modinha, mas sim tendências de mercado

Pesquisas ad hoc, netnografias, monitoramento de marcas, gerenciamento de crises, estratégias de comunicação online – como a “pirâmide de engajamento” ou os 5 Ps – são algumas das muitas alternativas que agências especializadas em mídias sociais podem utilizar para posicionar marcas no ambiente online. Mas é importante ressaltar que a análise das mídias não visa um fim para elas próprias. As redes se tornam o objeto de estudo para explicar fenômenos analisados coletivamente, ou seja, uma díade (interação entre duas pessoas) não deve ser observada isoladamente, tornando outros atores da ação (e interação) excludentes.
Sendo assim, é correto afirmar que a estrutura da rede é afetada diretamente pelo seu conteúdo, tornando os dois elementos co-dependentes e, ainda, por estarem expostos à influência de outros usuários dessas mesmas redes, de certa forma, tornam-se multi-dependentes.
Dessa maneira, temos um conjunto de indivíduos produzindo conteúdo e impactando outros indivíduos (direta ou indiretamente), influenciando opiniões e criando movimentos em um mesmo sentido, uma vez que os interesses e objetivos são os mesmos, dando origem a grupos específicos de temática, linguagem e dinâmica próprias.
Esses grupos, organizados no ambiente virtual, são as centenas de redes sociais disponíveis para qualquer usuário com acesso à internet. Cada rede possui características próprias, que tendem a se tornar mais fortes caso haja maior engajamento dos membros. Essa organização sócio-virtual se concentra em espaços informais e vai de encontro aos valores e interesses mútuos. Se fosse preciso resumir todo universo das mídias sociais em uma palavra, seria “relacionamento”.
Para as empresas, o cerne da questão é conseguir fazer parte desses relacionamentos. E mais: criar um movimento e interação seguindo interesses corporativos, de acordo com um plano de comunicação maior. É por isso que as mídias sociais não devem ser pensadas isoladamente – elas são apenas um braço de um objetivo de comunicação mais amplo, que envolve outras mídias (de apoio, espontâneas, patrocinadas…). Dessa maneira, não é viável, do ponto de vista de branding, uma marca investir nas mídias sociais para atender a uma latente necessidade e exigência do mercado (que pode ser muito menor do que parece) enquanto outros pontos do seu plano de comunicação e gestão corporativa não estiverem resolvidos, como o atendimento de SAC, por exemplo.
O mesmo vale para indústrias ou segmentos que não atuam diretamente com o varejo. Nesses casos, cabe a pergunta: o público dessas empresas está preparado (se é que ele está presente no ambiente online) para participar dessas redes de relacionamento virtuais? Vale a ressalva: o público que a empresa se relaciona não é necessária e unicamente formado por seus clientes. As redes sociais são abertas e a marca deve se relacionar com todos seus stakeholders. E mais: ela deve estar preparada para isso.
Por fim, é possível afirmar que as mídias sociais não são uma modinha passageira, mas que vieram pra ficar. A tendência é que esses relacionamentos online ganhem cada vez mais espaço e sejam tratados com maior seriedade e menos euforia. Sua marca está disposta (e preparada) para participar desses diálogos?
Por Felipe Attílio, atua como especialista em comunicação digital e social media na Enken. @lexotando